Autodescontrolo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O último fôlego

Ele tinha tomado a decisão, tinha de se afastar completamente para não se magoar. O namoro tinha acabado porque ela já não sentia o mesmo por ele, e não conseguia tentar manter uma amizade quando ainda tinha sentimentos por ela. Combinou um café, ela apareceu à hora marcada e ele tinha um nó na garganta do tamanho do mundo. A conversa de início demorou a engrenar e as trivialidades foram surgindo. Do café nada desatou. Ele sugeriu um passeio a pé pois precisava de ar e a conversa não surgia, hvaia demasiada gente ali. Saíram, os primeiros passos bem como os primeiros minutos foram dados em silêncio enquanto ele preparava as palavras, não as certas mas as necessárias. Ele respirou fundo e enquanto as lágrimas se começavam a formar nos seus olhos disse-lhe que não podia voltar a vê-la, que se iria afastar e que hoje seria o adeus, pelo menos enquanto a presença dela o magoasse. As lágrimas começaram a correr e continuaram a andar em silêncio. Ele olhou para a cara dela e ela tinha um sorriso na cara e os olhos a brilhar, ficou confuso e destroçado.

Ela disse que compreendia, afinal já não eram namorados e se tinha de ser assim que fosse. Mas continuava a sorrir. Se ela ao menos sentisse o quanto o estava a magoar. Ela sugeriu que fossem a qualquer lado. Ele assentiu e enquanto ele via-se livre das lágrimas dirigiram-se ao carro. A conversa foi decorrendo desta vez sobre os sentimentos e sobre tudo o que os unira. Era ela que conduzia e ele nem percebia para onde se dirigiam. Quando percebeu que não conhecia o percurso saí-lhe da boca um som mudo de espanto. Perguntou-lhe onde iam, ao que ela respondeu que veria daqui a nada. Ele achou estranho, não tinha combinado um café com ela por um motivo de alegria.

Quando chegaram ele já sabia onde estava, ela estacionou o carro e ele perguntava-se porque estavam ali. Sairam do carro e perguntou-lhe porque estavam ali, ela disse-lhe que lhe apeteceu e decidiu seguir os seus desejos. Continuava sem perceber e desconfiou que ela também não sabia o que estava a fazer. Decidiram tirar os sapatos, assim que pousou os pés sentiu a areia fria. O cheiro a mar e a algas invadiu-lhe as narinas e a lua debutava pouco acima da linha do horizonte. Aquela situação toda soava-lhe a cliché, no entanto decidiu ir com as ondas e seguir o que sentia e o que queria. No rosto dela apenas se via o sorriso e o brilho nos olhos. Começaram a andar pelo areal e toda aquela estimulação de sentidos fazia-o sentir vivo. Daí até começarem os jogos foi um pequeno passo. O toque, o empurrão, o agarrar, o atirar a àgua, o perseguir. A dada altura tinham areia em tudo o que era lado, estavam ofegantes e encharcados por tudo o que era lado. Já era bastante tarde, na realidade já era o dia seguinte, e a maré estava a subir, como tinham andado bastante corriam o risco de ficarem presos.

Foram para o carro e assim que lá chegaram tiveram uma surpresa, a chave havia sido perdida. Era impossível voltar a encontrar a chave. Depois de consideradas as opções tinham que incomodar alguém para buscar uma segunda chave, ele conhecia um amigo daquela zona. Duas horas depois, após incomodar um amigo e uma desculpa esfarrapada, voltavam para o carro e seguiaram para casa.

Quando o deixou, ele perguntou-lhe se queria subir e tomar alguma coisa. Ela disse que sim ao que ficou bastante supreendido. Entraram, ofereceu-lhe chá e bolachas. O silêncio e os olhares incomodos que tão bem conheciam predominaram. Depois começaram a conversar acerca do que se tinha passado. A determinada altura ela disse, se falassemos menos e fizessemos mais, ele não aguentou, abraçou-a e de seguida beijou-a não encontrou resistência. Os sentidos acumulados durante a noite dispararam e ansiavam pelo corpo um do outro. As roupas molhadas e cheias de areias cairam. Existia uma liberdade que nunca tinham sentido, apenas existia a entrega pura e total aos corpos nús e aos seus desejos. Livres era como se sentiam. Terminaram abraçados e ofegantes como tão bem conheciam. Milhares de coisas passavam pela cabeça dele, mas a que mais se destacava era o que queria dizer aquilo? Ela após algum tempo decidiu que ia embora, não queria passar a noite com ele, ou melhor queria, ou melhor não fazia ideia mas queria ir embora e foi.

No dia seguinte ele ia embora, iam ficar afastados durante todo o verão depois do que tinha acontecido. Ele foi cheio de coisas na cabeça e em confusão total. Um dia depois recebeu uma mensagem cheia de pontos de interrogação, ele nada respondeu. Ele sabia que se tivesse ficado lá ou que se recomeçasse a falar com ela, eles teriam voltado. Mas não o fez, era isso que desejava mais que tudo, mas não o fez. Queria que ela esfriasse as ideias, que pensasse bem no que queria e no que sentia pois não era numa noite que tudo seria emendado e o sentimento voltaria. Doeu-lhe muito e todo ele foi coração. Desesperou muito e chorou ainda mais depois disso. As feridas demoraram muito tempo a cicatrizar, sabe que já não a ama mas desconfia que uma ou outra ferida ainda não cicatrizou completamente.

Ainda hoje se pergunta, o que foi aquilo...

6 Comments:

  • At 5:18 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Todas as feridas deixam cicatrizes... as outras, nunca passam de arranhões
    "o que foi aquilo"? foi um respirar (talvez)

     
  • At 11:48 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    E outras achamos que estão fechadas... mas não estão.

     
  • At 12:21 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Que história linda. Muito triste mas linda.

     
  • At 8:10 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Pitux, é uma memória em forma de história ;)

     
  • At 12:02 da manhã, Blogger Andreia said…

    Descobri o teu blog através do da Pitux (que descobri por acaso e do qual sou uma silenciosa visitante relativamente assídua) e, depois de uns minutos a explorá-lo, encontrei este post, não resistindo a comentá-lo.
    A simplicidade do texto, a envolvência da história, a forma como descreves toda aquela noite fez com que adorasse o post. Parabéns!

     
  • At 10:33 da manhã, Blogger Pedro said…

    andreia, nem sei o que te dizer... obrigado!

     

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